Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

ESTREIA DO FILME AMÁLIA

Todos gostamos de ter razão, no que afirmamos, e todos gostamos de verificar que as previsões e análises que fazemos, se concretizaram, o que, nem sempre acontece, pelo que, quando não acertamos, haverá que reconhecê-lo, e dar a mão à palmatória, como se costuma dizer.  O que se escreve, exprimindo uma opinião, representa apenas a óptica de apreciação de quem escreve, o que leva de certeza, a que nem toda a gente esteja de acordo, podendo provocar uma "discussão", ou uma troca de ideias, no sentido de se chegar a uma conclusão, o que também, infelizmente, nem sempre acontece, o que se constata até por este blog, onde apesar de saber, que nem todos os que o visitam estão de acordo com o que aqui se escreve, também não provocam a "discussão" saudável, que seria desejável.

Vem, isto a propósito, de um comentário aqui publicado em 29 de Abril, com o titulo Prémio Goya - Ponto Final, onde escrevia, que a novela do Goya, poderia, acabar com a oferta da estatueta ao Museu do Fado, o que veio na realidade a acontecer, pelo que,é agradável a sensação de termos acertado no vaticinio que fizémos. Acertámos !

No entanto, também, num comentário aqui publicado em 16 de Junho com o titulo Filme Amália, desejámos sair da estreia do filme a cantar o "Que Deus me Perdõe" e a "Rosa Branca ao Peito", e infelizmente, na nossa modesta opinião, apenas podemos trautear o "Que Deus me Perdõe", porque, não se conseguiu fazer um bom filme, com a história bonita da vida de Amália. Falhámos !

Do mesmo modo, que em relação ao filme "Fados", de Carlos Saura, não abordámos, por falta de conhecimentos, a técnica cinematográfica, o mesmo acontece, em relação ao filme "Amália", pelo que, apenas, nos referiremos à história em si, ou seja ao argumento do filme.

Parece-nos, que o filme destaca em excesso, os aspectos menos bons da vida da Grande Senhora, ( não digo que a maior parte não sejam veridicos), como por exemplo, o funeral da sua irmã,( porquê e para quê,  o "carregar" daquela cena? ), a sua tendência para o suicidio, os seus amores com Eduardo Ricciardi e  Ricardo Espirito Santo,  e o" falhanço " aos 18 anos, numa festa privada em Paris, onde Amália não conseguiu cantar, ( este ultimo aspecto o que nos deixa duvidas, uma vez que apenas conheciamos a ideia de que teria saido pela primeira vez de Portugal, em 1943, para Madrid, a convite do Embaixador de Portugal ), ficando, em nossa opinião, em plano secundário, ou menos destacados, os grandes e inolvidáveis momentos da grandiosa carreira de Amália, considerada, a par de Edith Piaff e Maria Callas, uma das três grandes vozes femininas do século XX.

Fazer um filme sobre Amália, a sua vida, e a sua carreira, exige um grande trabalho de pesquisa, e, exigia que se consultassem, familiares, amigos e artistas, sobretudo músicos, que com ela conviveram, no sentido de se respeitarem cronologias, e confirmar-se a verdade dos acontecimentos que o filme retrata, o que nos parece que não tenha sido conseguido, uma vez que a própria familia de Amália, não terá concordado com o argumento, levando até o assunto aos tribunais.

Quer dizer, em vez de se aproveitar o facto de a sua irmã  D. Celeste Rodrigues, estar ainda entre nós, ( e esperemos que esteja por muitos e longos anos ), que com ela tanto conviveu, e que é longamente retratada no filme, não só, para "fornecer" elementos importantes, como para confirmar os que são conhecidos, através do muito que se tem escrito sobre Amália, entra-se em "guerra" , e, vamos para os tribunais...

E, porque é que a familia foi para o tribunal ? Não sei, e, gostava de saber, porque não acredito que tenha sido apenas, pela cena de tentativa de suicidio em Nova York, uma vez que essa terá sido verdadeira, tendo até sido abordada publicamente, ainda em vida da Grande Amália, que atribuiu às cassetes de Fred Astaire a desistência do seu intento.

O que ficou quanto a nós, em plano menos destacado ou em plano secundário, e que nos parece, que deveria ter sido objecto de mais atenção ?

    Onde está retratada a Grande Amália do teatro, onde se estreou, ao que creio em 1940, portanto, com 20 anos de idade, e onde criou grandes êxitos, como o Fado do Ciume ?  É que Amália, chegou a ter a sua própria Companhia, de opereta e revista, tendo obtido grande êxito no Brasil, onde também terá estreado o grande êxito que foi Ai Mouraria . E esquecemos que ela fez em teatro a protagonista de A Severa ?

      Onde está retratada a Grande Amália do Cinema, arte que foi importantissima na sua carreira, porque, poderemos admitir, que foi o Cinema que a projectou para o Mundo, que a deu a conhecer, e que fez depois nascer o desejo de a ver actuar ao vivo ? A Amália de "Capas Negras", o seu primeiro filme, onde cantou o sempre apreciado "Nao sei porque te foste embora" ? E a Amália de  " História de uma Cantadeira " ? E esquecemos que Amália recebeu em 1947 o Prémio de Melhor Actriz de Cinema ?

Este filme sobre Amália Rodrigues, é para os portugueses, para o Mundo, e muito para todos os seus admiradores. e amantes do Fado, pelo que é de esperar, que os estudiosos da vida e da carreira de Amália se interroguem, e tentem esclarecer aspectos que se possam apresentar duvidosos.

A que propósito, Francisco Cruz, seu primeiro marido, é apresentado como violista, quando tudo parece indicar que seria guitarrista ?

Não teria sido interessante, mostrar também que Amália terá sido, a primeira mulher a cantar de preto, portanto a trazer o preto para o Fado ?

Não me recordo de ver no filme a Amália que encantou o Mundo, e internacionalizou o Fado, a ser acompanhada pelos seus musicos, nos maiores palcos mundiais,vestidos de smoking e a tocarem de pé. E, felizmente, muitos dos seus musicos ainda estão entre nós. porque ainda há pouco tempo estiveram num espectáculo no Campo Pequeno, os que a acompanharam no Olympia de Paris.

Amália é o Fado, e como tal, tudo o que se fizer sobre ela terá que ser muito bem feito  com muito cuidado,e muito rigor,  porque ficará na história do Fado. Portanto, para mim, vão pensando noutro filme, porque este não retrata a Grande Senhora do Fado. E, ela merece ser bem retratada.

A terminar, resta-me acrescentar que a grandeza de Amália, a curiosidade que desperta, e a grande comunhão que sempre houve entre ela e o público, já levou a ver a sua história, algo mal contada, em pouco mais de um mês, 100.000 espectadores !

Ah, já me esquecia, vou perguntar à D. Celeste Rodrigues o que faz uma senhora deitada no fundo da cama de Amália. Qual o objectivo daquela cena ?

Caros amigos, se assim o entenderem, espero receber os vossos comentários.

Um Bom Ano Novo para todos

Saudações fadistas

Zé da Viela

      


publicado por Zé da Viela às 23:27
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11 comentários:
De Zé da Viela a 14 de Janeiro de 2009 às 23:50
Agradeço ao Sr. Carlos Monteiro a visita que fez ao meu blogue.
Se reparar no meu comentário, dou relevo ao facto de não aparecer a Grande Amália, a Amália dos grandes espectáculos.
Devo lembrar que a sua irmã Celeste, muito focada no filme, foi sempre sua companheira, até em viagens ao estrangeiro, pelo que poderia certificar muitos dos aspectos do filme.
O filme mostrar o guitarrista Francisco Cruz, primeiro marido da Amália, como violista, demonstra que não se fez a pesquisa que a Grande Amália merece.
As minhas saudações
Zé da Viela


De Carlos Monteiro a 22 de Janeiro de 2009 às 00:59
Exmo. Sr. Zé da Viela,

Agradeço muito a sua amabilidade e cortesia.
E cá volto também pela sua simpatia.

Eu sou muito jovem, tenho apenas 30 anos e realmente compreendo que as pessoas que conheceram muito bem a Amália fiquem desiludidas com o filme.

De facto, o filme passa muito ao lado da grande rainha e estrela do Fado que dominou o mundo, mas sim mostra uma vida íntima, que, ainda por cima, apresenta alguma ficção para tornar o filme mais "vistoso".

Porém, nem tudo é mau... Admito que fui ver o filme por mero acidente. Não era suposto ver o filme porque nunca soube o que era Fado ou a Amália. E se calhar ainda não sei, mas o que é facto é que passei a comprar, a partir do filme, álbuns da Amália e agora não ouço outra coisa! Estou apaixonado! E porquê? Porque o filme ensinou-me (penso eu) que o Fado nasce das angústias e tristezas da vida e sai directamente do coração para tomar forma numa canção...

Amália traz na voz todos os seus sentimentos... E é por isso que agora vejo que a Mariza não lhe chega sequer aos calcanhares!! Porque não sente verdadeiramente o que canta!

A Amália sim, cantava e chorava, o que era a sua vida, e por isso mais sentimento que esse nunca alguém terá... Além disso tem uma voz LINDÍSSIMA e ARREPIANTE!

E é isso que todo mundo, mesmo sem perceber Português gostou: o sentimento e a beleza da sua voz.

Já agora aproveito para lançar aqui umas questões acerca do filme, porque já me apercebi que o Exmo. Sr. Zé da Viela conhece a vida da Amália (que eu gostava MESMO de conhecer)...
O que é verdade no filme que vimos? E as letras das músicas não estarão ligadas a acontecimentos do filme? Alguns exemplos que me lembrei:

"Amália, disse-me alguém com ternura
Amália da mais bonita maneira
e eu toda coração julguei ouvir então
Amália p'la vez primeira"
(Poderia ser essa a tal Israelita que chama por ela no Brasil daquela bonita maneira e a faz voltar a cantar?)

A minha música PREFERIDA:
"Sabe-se lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá
Amanhã o que virá,
Breve desfaz - se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe, quando nasce
Pró que nasce uma pessoa. "
(não estará relacionada com a morte da irmã? "breve desfez-se" a vida da irmã Aninhas?)

"Se é contrafeito
Não voltes, toma cautela
Porque eu aceito
Que vivas antes com ela
Pois podes crer
Que antes prefiro morrer
Do que contigo viver
Sabendo que gostas dela." (não está relacionado com o primeiro casamento dela, que foi forçado porque ele andava com outra?)

"Povo que lavas no rio
Que talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão." (será que ela por momentos esqueceu o palco e cantou mesmo esta música perante o povo? no filme até está a cantar mesmo no RIO!)

"Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo."
(No filme Amália acaba por ter vários parceiros, procurando sempre o amor que nunca encontra... e de facto, sempre viveu toda a vida, o medo da morte.... quando estava sozinha em casa só pensava na morte.

"Lisboa não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que idéia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
....
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós"
(não estará relacionado com o facto, no filme, de quererem fazer da Amália um artista Francesa?)

"Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda minha a saudade.
.....
Que estranha forma de vida
Tem este meu coração:
Vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
Coração que não comando:
Vive perdido entre a gente,
Teimosamente sangrando,
Coração independente.
...
Se não sabes onde vais,
Porque teimas em correr,
Eu não te acompanho mais."
(Esta para mim diz tudo... é o filme tal e qual... Amália é a autora desta letra e fala TAL E QUAL do que acontece no filme: do coração que a trai e que ela se quer libertar APENAS com a morte (suicídio): "coração, não te acompanho mais...")

O que disse faz algum sentido? será mais ou menos assim? E sempre é verdade que teve um amor secreto com Espírito Santo e namorou Eduardo Ricciardi (este existiu mesmo e foi campeão de Ténis Português... Está na página da Federação de Ténis Portuguesa).

Agradeço sua apreciação.

Com estima e consideração,

CM


De Zé da Viela a 27 de Janeiro de 2009 às 00:29
Caro amigo Monteiro
No seu comentário, que agradeço, o meu amigo tem uma passagem excelente,que, muita gente conhecedora de fado, talvez nunca tenha sido capaz de a pronunciar, como o meu amigo o faz, mesmo partindo do principio, como afirma, que é pouco conhecedor de fado. - o fado nasce das angustias e tristezas da vida e sai directamente do coração para tomar forma numa canção.- É isto mesmo caro Sr. Monteiro. Por isso há muitos fadistas, com muitos anos de fado, que dizem, que, para se ser Fadista ( com F grande ), tem que se ter vivido, tem que ter-se alguma vivência, que tivesse passado pelas tais angustias e tristezas. Felicito-o,porque não sendo grande frequentador de fado ( passou a ser, ainda bem ), retrata também, numa simples frase, o que muita gente entendida em fado, anda a dizer há muito tempo sobre a Mariza. Ela tem na verdade uma voz excepcional, mas parece que não sente o Fado.
Quanto às outras questões que coloca, se achar por bem, deixar no meu blogue um email, eu responder-lhe-ei, porque a fazê-lo aqui, ficaria muito extenso.
Renovo os meus agradecimentos por ser leitor do meu blogue, e, fico a aguardar noticias suas.
Saudações fadistas
Zé da Viela


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